terça-feira, 20 de março de 2018

Planetário de Brasília se transformará em “Planeta ODS"

Entre 19 e 23 de março, o Planetário de Brasília será transformado no “Planeta ODS”. O espaço fará referência aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, com base nos ODS 6 – Água potável e saneamento. O “Planeta ODS” terá mesas de debate com a participação de representantes de governos, sociedade civil e setor privado, exposições de imagens, exibição de filmes fulldome e curtas metragens. A programação será transversal ao Fórum Mundial da Água, que ocorrerá no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, entre 18 e 23 deste mês.

A abertura oficial do “Planeta ODS” será no dia 19 (segunda-feira), em evento fechado para convidados. A partir do dia 20, inicia-se a programação de mesas de debate, exibição de filmes no formato fulldome e curtas metragens. Serão 15 mesas de debate, entre os dias 19 e 23. Todas as discussões terão como ponto de partida o tem água. Com base na Agenda 2030, os participantes das mesas terão a oportunidade de debater, em diferentes momentos, a implementação dos diferentes eixos da Agenda 2030 (Paz, Pessoas, Planeta, Parcerias e Prosperidade), com base no ODS 6 – Água potável e saneamento.

Durante os quatro dias de programação, os visitantes do “Planeta ODS” participarção de debates sobre água e governança, colaboração do setor privado para o alcance das metas dos ODS 6, empreendedorismo e gestão de recursos hídricos e desenvolvimento rural sustentável. No dia 22, às 11 horas, será lançado o Relatório Mundial da Água 2018. O Grupo Assessor da ONU no Brasil para a Agenda 2030 também fará, ao longo do evento, o lançamento do Glossário do ODS 6, publicação que traz definições de termos e conceitos referentes às metas sobre àgua e saneamento.

 “Será um espaço de esforço coletivo para se promover um evento de qualidade, tendo como “pano de fundo” a integradora e positiva narrativa dos ODS. A visão dos ODS é integrada, mas, obviamente, durante o Fórum Mundial da Água, o objetivo em destaque é o ODS 6 – Água potável e saneamento, o qual dialoga com todos os outros Objetivos. A proposta do planetário é promover debates e exposições que conectam questões relacionadas à água, com base nos eixos da Agenda 2030: Paz, Pessoas, Planeta, Prosperidade e Parcerias”, afirmou o assessor sênior do PNUD no Brasil, Haroldo Machado Filho.  

O “Planeta ODS” é realizado por meio de uma parceria entre a Secretaria de Governo da Presidência da República, Governo de Brasília, Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento e o Centro Rio+. O evento também tem o apoio do Sistema ONU no Brasil, de representantes do setor privado, de governos e da sociedade civil. O acesso ao Planetário é gratuito, mas os visitantes devem, previamente, fazer a inscrição para participar das atividades, por meio do link: http://bit.ly/2oXpVuz.

Acesse aqui a programação completa.




segunda-feira, 19 de março de 2018

V SEDRES - SEMINÁRIO DE DESENVOLVIMENTO REGIONAL, ESTADO E SOCIEDADE


UNIVERSIDADE FEDERAL DO TOCANTINS (UFT)
4 DE SETEMBRO DE 2018 – 6 DE SETEMBRO DE 2018

O Seminário de Desenvolvimento Regional, Estado e Sociedade (SEDRES) nasceu com o propósito de fomentar e fortalecer a interação entre pesquisadores brasileiros e estrangeiros em torno das discussões sobre o desenvolvimento regional. O evento foi planejado para ser bianual, inicialmente, para suprir uma lacuna da área de Planejamento Urbano Regional/Demografia, intercalando-o com ENNAPUR. Mas, hoje, é considerado o evento mais importante da área devido sua abrangência e aceitação pelos pares que elegem a próxima sede e comitê organizador, de forma democrática, a cada edição. A idealização do Sedres foi chancelada, no ano de 2011, na Assembleia Geral da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Planejamento Urbano e Regional (ANPUR).

Já em agosto de 2012, ocorreu a 1a edição do evento na cidade do Rio de Janeiro a partir da parceria dos programas da UNISC, FURB, UFPA e IPPUR vinculados à área. Dessa forma, a UFRJ, da região sudeste, inaugurou a realização do evento com o tema “Abordagens e experiências”, que expressava o desejo de agregar todas as abordagens de estudos empíricos, reflexões teóricas e demais propostas nas diversas dimensões - econômica, social, política e cultural - em diferentes escalas do desenvolvimento.

Na 2a edição, foi a vez da região nordeste, que teve o tema “A diversidade Regional Brasileira em perspectiva”. O evento foi realizado em Campina Grande-PB, pelo Programa de Desenvolvimento Regional da Universidade Federal da Paraíba – UFPB, no período de 13 a 15 de agosto de 2014.

A 3a edição foi realizada na região sul do país, pelo Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional (PPGDR) da Universidade Regional de Blumenau - Furb, no período de 14 a 17 de setembro de 2016.  Dessa vez, o tema escolhido foi: A questão Regional uma questão (de) política. O evento recebeu cerca de 300 trabalhos, sendo que 280 deles foram aprovados e distribuídos em 4o Grupos de Trabalho (GTs). Ao todo, 260 pessoas participaram dos quatro dias de evento.

A 4a edição do evento que será realizada em Palmas/TO, na região Norte do país,  terá como tema “Democracia e Desigualdades Regionais”. O evento será realizado no período de 4 a 6 de setembro na Universidade Federal do Tocantins – UFT, sob a coordenação do Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Regional em parceria com o Mestrado Acadêmico em Demandas Populares e Dinâmicas Regionais e o Mestrado Profissional em Gestão de Políticas Públicas.
Para 4ª edição, artigos completos poderão ser submetidos para avaliação entre 26/02/2018 e 20/04/2018. A divulgação dos artigos aceitos será realizada até 08/06/2018. Maiores informações podem ser encontradas na seção "Chamada para submissões".

As inscrições poderão ser realizadas entre 26/02/2018 e 06/09/2018, observando variações de valores em decorrência da proximidade à data de realização do evento. Maiores informações podem ser encontradas na seção "Inscrições".

quinta-feira, 15 de março de 2018

Relatório de painel internacional pede ‘mudança fundamental’ na gestão da água

Mais de 2 bilhões de pessoas são obrigadas a beber água insegura
Foto: Imal Hashemi/Taimani Films/Banco Mundial

Em meio ao perigo que representa a crescente escassez de água em todo o mundo, um painel de 11 chefes de Estado e um assessor especial estabelecido pela ONU e pelo Banco Mundial lançou nesta quarta-feira (14) um relatório e uma carta aberta denominados “Faça cada gota contar: uma agenda de ação pela água”.

A publicação pede uma “mudança fundamental” na forma como o mundo administra a água. Sem uma melhor gestão deste valioso recurso natural, afirmam seus autores, não será possível cumprir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) – particularmente o Objetivo seis, que visa assegurar a disponibilidade e gestão sustentável da água e saneamento para todas e todos.

De acordo com o relatório, 40% das pessoas em todo o mundo estão sendo afetadas pela escassez de água. Se o problema não for solucionado, cerca de 700 milhões de pessoas poderiam ser deslocadas até 2030 em busca de água.

Mais de 2 bilhões de pessoas são obrigadas a beber água insegura e mais de 4,5 bilhões não possuem serviços de saneamento gerenciados de forma segura.

O relatório mostra que mulheres e meninas sofrem desproporcionalmente quando falta água e saneamento, afetando a saúde e muitas vezes restringindo as oportunidades de trabalho e educação.

Cerca de 80% das águas residuais são descarregadas sem tratamento no ambiente. Além disso, catástrofes relacionadas à água representam 90% entre as 1 mil catástrofes naturais mais devastadoras desde 1990.

“É minha profunda convicção que a água é uma questão de vida e morte”, disse o secretário-geral da ONU, António Guterres, ao receber o relatório na quarta-feira (14), observando que 60% do corpo humano é água.

Ele disse que as catástrofes naturais relacionadas com a água estão ocorrendo mais frequentemente e se tornando cada vez mais perigosas em todos os lugares. Dessa forma, disse, “a água é realmente uma questão de vida e morte” e “deve ser uma prioridade absoluta em tudo o que fazemos”.

O presidente do Grupo do Banco Mundial, Jim Yong Kim, enfatizou que os chefes de Estado e de governo formaram o painel “porque o mundo não pode mais se dar ao luxo de ter a água como garantia”.

“Os ecossistemas em que a própria vida se baseia – nossa segurança alimentar, sustentabilidade energética, saúde pública, empregos, cidades – estão em risco devido à forma como a água é gerenciada hoje”, alertou.

O painel, criado em 2016 por um período inicial de dois anos, está defendendo políticas baseadas em evidências e abordagens inovadoras nos níveis global, nacional e local para tornar o gerenciamento da água, bem como os serviços de água e saneamento, atraentes para investimento e mais resilientes a desastres.

O painel solicita políticas que permitam pelo menos uma duplicação do investimento em infraestrutura da água nos próximos cinco anos.

O relatório também destaca a necessidade essencial de parcerias entre governos, comunidades, setor privado e pesquisadores.

Em uma carta aberta, eles concluem: “Quem quer que seja, seja lá o que fizer, onde quer que você esteja, todos nós temos uma responsabilidade compartilhada para mudar o futuro da água. Faça cada gota contar. É hora de agir”.

Acesse aqui o relatório do painel na íntegra.

Saiba mais sobre o Painel de Alto Nível sobre Água em https://sustainabledevelopment.un.org/HLPWater.


56º Congresso da Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural

Entre 29-07 e 01-08-18, o Instituto de Economia da Unicamp estará sediando o 56º Congresso da Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural (SOBER), sob o tema “Transformações Recentes na Agropecuária Brasileira: desafios em gestão, inovação, sustentabilidade e inclusão social”.

Trata-se de uma oportunidade para divulgação de pesquisas realizadas nas áreas de concentração abaixo. O período de submissão se encerra no dia 25/03/2018.

Áreas de concentração:

1. Mercados agrícolas e comércio exterior
2. Instituições, governança e gestão do agronegócio
3. Evolução, estrutura e dinâmica dos complexos agroindustriais
4. Questão ambiental, agroecologia e sustentabilidade
5. Agricultura familiar e ruralidades
6. Cooperativismo, associativismo e outras formas de ação coletiva
7. Desenvolvimento rural, territorial e regional
8. Pesquisa, inovação e extensão rural
9. Questão agrária, governança de terras, políticas agrárias e assentamentos rurais
10. Trabalho, emprego e ocupações rurais
11. Abastecimento, segurança alimentar e nutricional e dinâmicas de consumo
12. Política agrícola e políticas públicas de desenvolvimento rural
13. Temas emergentes no agronegócio

Para mais informações sobre o congresso e diretrizes para submissão dos artigos, consulte: sober.org.br/congresso2018

Cordialmente,
Antônio Márcio Buainain
Marcelo Pereira da Cunha
Rodrigo Lanna

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Prof. Rodrigo Lanna F. da Silveira
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University of Campinas - Unicamp
Institute of Economics
Campinas/SP - Brazil
rodrigolanna.wix.com/rlanna

quarta-feira, 14 de março de 2018

"É preciso tratar as florestas de uma forma holística"

Índio residente da Floresta Nacional do Tapajós, no Pará
Foto: Eskinder Debebe/ONU

A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) quer promover uma maior integração das florestas com atividades agrícolas sustentáveis. Durante um encontro na sede da agência, em Roma, encerrado em 22 de fevereiro, especialistas e representantes de governos e da sociedade civil debateram formas de manter a floresta de pé ao mesmo tempo em que se preocupam em atender as demandas de um mundo com populações crescentes.

Para os participantes, com boa vontade política é possível atingir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável com florestas ricas, produtivas e diversas. A vice-diretora-geral da FAO, Maria Helena Semedo, falou à ONU News que é preciso encarar o tema das matas de forma holística, onde todos saem ganhando. “É preciso ter um diálogo em que todos os participantes, todos os agentes também façam parte. O papel das florestas com a ligação com segurança alimentar, com a pecuária e com as necessidades também da população que cresce e se urbaniza. Essa visão de todos os valores e os serviços, e bens e serviços produzidos pelas florestas e que são importantes para a nossa sobrevivência.”


Floresta Amazônica

Maria Helena Semedo também falou sobre a contribuição dos países de língua portuguesa para a promoção do combate ao desmatamento. “Temos Angola, Moçambique, Guiné-Bissau que ainda mantém, praticamente as florestas primárias, mas que pelo nível de pobreza que ainda têm, leva a cortar as florestas para cozinhar nossos alimentos. Nós ainda cozinhamos muito à lenha. E depois tem o Brasil com a Floresta Amazônica e que tem sofrido um nível de desmatamento considerável. Sabemos que o nível de desmatamento tem reduzido, tem tido um esforço muito grande através de políticas apropriadas do governo brasileiro, mas ainda continua-se o desmatamento, não obstante à redução da taxa”.

Segundo a FAO, os níveis globais de desmatamento caíram pela metade nas últimas duas décadas. De uma média de 7,3 milhões de hectares em 2000 para 3,3 milhões em 2015.

Jovens

Mas as taxas de degradação e desmatamento continuam em níveis alarmantes. Cerca de 80% da perda florestal são causados pela conversão da floresta em terras para atividades agrícolas.

No documento final, produzido pela conferência, especialistas ressaltaram a questão da responsabilidade corporativa do agronegócio como uma peça central para combater o desmatamento. E recomendaram, ainda, o engajamento da juventude como agentes de mudança reforçando educação e treinamento para conter a destruição das matas.

O tema deve voltar a ser debatido no Fórum da ONU sobre Florestas, marcado para maio.



terça-feira, 13 de março de 2018

UFT sedia 4ª edição do Seminário de Desenvolvimento Regional, Estado e Sociedade


Está aberto o período de submissões de trabalhos até o dia 20 de abril para a 4a edição do Seminário de Desenvolvimento Regional, Estado e Sociedade (Sedres) que será realizado na Universidade Federal do Tocantins (UFT), em Palmas. Com o tema “Democracia e Desigualdades Regionais”, o evento será realizado no período de 4 a 6 de setembro na UFT, sob a coordenação do Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Regional (PPGDR) em parceria com o Mestrado Acadêmico em Demandas Populares e Dinâmicas Regionais e o Mestrado Profissional em Gestão de Políticas Públicas.

Segundo o coordenador do PPGDR, Waldecy Rodrigues, o Sedres é o maior evento da área de Desenvolvimento Regional no Brasil e congrega todos os cursos do país, de Norte a Sul. Estão confirmadas ainda a participação de pesquisadores e palestrantes de outros países, como Portugal e México. “É o evento mais específico da nossa área no país, que deve reunir cerca de 400 a 500 pessoas aqui em Palmas. E é algo muito significativo e motivo de reconhecimento para nós do PPGDR, uma vez que somos ainda, o único programa com Doutorado no Brasil, aqui na região centro-norte brasileiro”, explicou.

Submissões

Os trabalhos deverão estar inseridos no contexto de pelo menos uma sessão temática e seguir estritamente as diretrizes de formatação presente na página oficial do evento. São eixos temáticos para a submissão dos trabalhos: Estado, Instituições e Políticas Públicas; Estudos Teóricos e Metodológicos em Desenvolvimento Regional; Cultura, Turismo e Desenvolvimento; Dinâmicas Socioeconômicas no Território; Ambientes e Desenvolvimento no Território e Ciência, Tecnologia e Inovação.

Sedres

O Seminário de Desenvolvimento Regional, Estado e Sociedade (SEDRES) nasceu com o propósito de fomentar e fortalecer a interação entre pesquisadores brasileiros e estrangeiros em torno das discussões sobre o desenvolvimento regional. A idealização do Sedres foi chancelada, no ano de 2011, na Assembleia Geral da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Planejamento Urbano e Regional (ANPUR).


6 dicas para reduzir o lixo de banheiro



Consumo

Já pensou em levar a sustentabilidade para o seu banheiro? Descubra como substituir alguns itens e reduzir a quantidade gerada de lixo de banheiro.

1. Algodão

Usamos algodão pra quase tudo: limpar o rosto, tirar a maquiagem, limpar ferimentos e outras coisas. O problema, é que os algodões convencionais que utilizamos são quimicamente  tratados e levam mais tempo para se decompor no meio ambiente, fora que eles vêm embalados em plástico, que é péssimo para o meio ambiente.

Substituído por: discos de crochê laváveis.

2.Cotonetes

Os cotonete não são recicláveis, assim como os algodões. Aquele plástico da haste também não. Estes pequeninos também são grandes geradores de lixo de banheiro.

Substituído por: dedo! Sim, os médicos não recomendam o uso de cotonetes e indicam a lavagem dos ouvido com o próprio dedo durante o banho. O nosso corpo empurra naturalmente a cera para a área mais externa na orelha e é isso que você deve limpar.

3.Lenços de papel

Sejam os pacotes nas bolsas e mochilas, ou as caixas no banheiro. Os lenços de papel geralmente são coisas sobre as quais quase nunca nos questionamos.

Substituído por: lenços de tecido, são super charmosos e não produzem lixo!

4.Esfoliantes e shampoos com petrolatos e parabenos

Sim, é bom esfoliar a pele com um gel geladinho e docinho, mas quando você olha a para a sua composição, é de chorar. Largue os potes plásticos e diga “olá” para os cosméticos sólidos.

Substituído por: sabão e shampoo em barra.

5.Esmalte

A composição dos esmaltes de unha chegam até a dar calafrios! E quanto à acetona?! Será que você realmente precisa pintar as unhas?

Substituído por: nada! Viva as unhas naturais!

6.Absorventes

Os absorventes (internos ou não) são feitos com algodão quimicamente tratado, assim como os cotonetes citados anteriormente. Por isso, não são recicláveis e geram um monte de lixo com alto potencial de contaminação por causa do sangue. Eles vão direto para o aterro, onde estarão em contato direto com a natureza e os habitantes locais. Existem alternativas muito práticas e sustentáveis, como é o caso dos coletores menstruais e absorventes de tecido.

Substituído por: Coletor menstrual ou absorvente de tecido



quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Do “livre” mercado às grandes ditaduras

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Sai, nos EUA, livro sobre Karl Polanyi – o pensador que mostrou como a desregulação das economias levaria à desigualdade brutal e, por fim, ao fascismo
Por Robert Kuttner | Tradução: Mauro Lopes | Imagem: Cena de “Os Deuses Malditos”, peça teatral adaptada a partir do filme homônimo, de Lucchino Visconti
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Resenha do livro:
Karl Polanyi: A Life on the Left, de Gareth Dale
Imprensa da Universidade de Columbia, 381 páginas, 27 dólares
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Que era esplendorosa estaríamos supostamente vivendo, com a única superpotência restante espalhando o capitalismo e a democracia liberal em todo o mundo. Em vez disso, a democracia e o capitalismo parecem cada vez mais incompatíveis. O capitalismo global escapou dos limites de uma economia mista pós-guerra, que reconciliou o dinamismo com a segurança através da regulamentação do sistema financeiro, do empoderamento do trabalho, do estado do bem-estar social e de elementos de uma propriedade pública. A riqueza eliminou a cidadania, produzindo maior concentração de renda e poder, bem como a perda de fé na democracia. O resultado é uma economia de extrema desigualdade e instabilidade, organizada não para muitos, mas para poucos.
Karl Polanyi
Karl Polanyi

Não surpreendentemente, muitos reagiram. Para decepção daqueles que esperavam na esquerda democrática disposição para limitar a ação dos mercados, a reação é principalmente dos populistas de direita. E por “populista” entenda-se a natureza dessa reação cuja retórica, princípios e práticas nacionalistas tangenciam o neofascismo. Um aumento do fluxo de migrantes, outra característica da globalização, agravou a raiva de pessoas atingidas pelas crises econômicas  que querem Fazer a América Grande Novamente (assim como a França, a Noruega, a Hungria, a Finlândia …) . Isso ocorre não apenas em países fracamente democráticos como a Polônia e a Turquia, mas nas democracias estabelecidas — Grã-Bretanha, EUA, França, e mesmo a Escandinávia social-democrata.
TEXTO-MEIO
Já vivemos esta situação antes. Durante o período entre as duas guerras mundiais, os liberais do “livre” mercado que governam a Grã-Bretanha, a França e os EUA tentaram restaurar o sistema do laissez-faire de antes da Primeira Guerra Mundial. Ressuscitaram o padrão-ouro e colocaram como prioridade não a recuparação econômica,mas o pagamento das dívidas de guerra e reparações. Foi um tempo de “livre” comércio e especulação desenfreada, sem controle sobre capital privado. O resultado foi uma década de insegurança econômica que terminou em depressão, enfraquecimento da democracia parlamentar ereação fascista. Até as eleições alemãs de julho de 1932, quando os nazistas se tornaram o maior partido no Reichstag, a coalizão governamental anterior a Hitler estava praticando a austeridade econômica recomendada pelos credores da Alemanha.
O grande profeta de como as forças do mercado levaram ao extremo de destruir a democracia e uma economia em funcionamento não foi Karl Marx, mas Karl Polanyi. Marx esperava que a crise do capitalismo acabasse numa rebelião global dos trabalhadores que levaria até o comunismo. Polanyi, com quase um século mais de história para avaliar, indicou que a maior probabilidade era o advento do fascismo.
Como Polanyi demonstrou em sua obra-prima, The Great Transformation (A Grande Transformação – Editora Campus, Rio, 2ª ed, 2000), de 1944, quando os mercados se tornam “desembarcados” de suas sociedades e criam deslocamentos sociais severos, as pessoas acabam por se revoltar. Polanyi viu a catástrofe da Primeira Guerra Mundial, o período entre as guerras, a Grande Depressão, o fascismo e a Segunda Guerra Mundial, como a culminação lógica das forças do mercado que esmagam a sociedade. Tratava-se, para ele do “esforço utópico do liberalismo econômico para criar um sistema de mercado autorregulado” — algo que começou na Inglaterra do século XIX. Esta foi uma escolha deliberada, ele insistiu, e não a reversão a um estado econômico natural. A sociedade de mercado, Polanyi demonstrou insistentemente, só pode existir devido a uma ação deliberada do governo que define direitos de propriedade, termos de trabalho, comércio e finanças. “O laissez faire“, escreveu ele enfaticamente, “foi planejado”.
Polanyi acreditava que a única via política capaz de moderar a influência destrutiva do capital organizado e sua ideologia do ultra mercado era por meio de movimentos trabalhistas altamente mobilizados, astutos e sofisticados. Ele concluiu isso não a partir da teoria econômica marxista, mas de uma observação aguda da experiência mais bem sucedida de um socialismo municipal na Europa entreguerras: a “Viena Vermelha” (Red Viena), onde trabalhou como jornalista econômico na década de 1920. Por um tempo no pós-Segunda Guerra Mundial, todo o Ocidente teve uma forma igualitária de capitalismo construída sobre a força do Estado democrático e sustentada por fortes movimentos trabalhistas; mas, desde a era de Thatcher e Reagan, esse poder de contenção foi esmagado, com resultados previsíveis.
Em A Grande Transformação, Polanyi enfatizou que os imperativos essenciais do liberalismo clássico do século XIX eram 1) o “livre” comércio, 2) a ideia de que o trabalho devia “encontrar seu preço no mercado” e 3) a aplicação do padrão-ouro. Os equivalentes de hoje são estranhamente semelhantes. Temos um impulso cada vez mais intenso para o comércio desregulado, para destruir os restos do capitalismo com algum nível de gestão e regulação; e o desmantelamento do que resta das salvaguardas do mercado de trabalho para aumentar os lucros das empresas multinacionais. No lugar do padrão-ouro, cuja função do século XIX era a de forçar as nações a priorizar o “dinheiro seguro” e os interesses dos detentores de títulos antes do verdadeiro bem-estar econômico, temos políticas de “austeridade” aplicadas pela Comissão Europeia, pelo Fundo Monetário Internacional e a chanceler alemã, Angela Merkel, com os bancos centrais endurecendo o crédito aos primeiros sinais de inflação.
Esta trindade obscena de políticas econômicas que Polanyi identificou não está funcionando mais agora do que na década de 1920. São fracassos retumbantes , na economia, na política social e na política. A análise histórica de Polanyi, em ambos os escritos anteriores e em The Great Transformation, foi confirmada três vezes, primeiro pelos eventos que culminaram na Segunda Guerra Mundial, depois pela contenção temporária do laissez-faire com a prosperidade democrática durante o boom do pós-guerra e agora novamente pela restauração do liberalismo econômico primário e a reação neofascista a ele.
Karl Polanyi: Uma vida à Esquerda -uma biografia intelectual
Karl Polanyi: Uma vida à Esquerda -uma biografia intelectual
A biografia intelectual escrita por Gareth Dale, Karl Polanyi: A Life on the Left [Karl Polanyi: Uma vida à Esquerda — Columbia University Press, 2013], fez um fino trabalho de mergulhar no homem, seu trabalho e a configuração política e intelectual em que ele se desenvolveu. Esta não é a primeira biografia de Polanyi, mas é a mais abrangente. Dale, cientista político que ensina na Brunel University em Londres, também escreveu um livro anterior, Karl Polanyi: The Limits of the Market(2010), sobre seu pensamento econômico.
Polanyi nasceu em 1886 em Viena, em uma ilustre família judaica. Seu pai, Mihály Pollacsek, emigrou da região dos Cárpatos do Império Habsburgo e formou-se engenheiro na Suíça. Ele era empregado do vigoroso sistema ferroviário do império. No final da década de 1880, Mihály mudou a família para Budapeste, de acordo com o Arquivo Polanyi. Embora tenha mantido seu sobrenome, ele adaptou o dos filhos para ao magiar (húngaro) Polanyi em 1904 — o mesmo ano em que Karl iniciou estudos na Universidade de Budapeste. A mãe de Karl, Cecile, a filha bem educada de um rabino de Vilna (Lituânia), era uma feminista pioneira. Ela fundou um colégio de mulheres em 1912, escreveu para periódicos de língua alemã em Budapeste e Berlim e presidiu um dos salões literários de Budapeste.
Em casa, o alemão e o húngaro eram falados (juntamente com o francês “à mesa”); e o inglês foi aprendido, conta Dale. As cinco crianças Polanyi também estudaram grego e latim. No quarto de século antes da Primeira Guerra Mundial, Budapeste era um oásis de tolerância liberal. Tal como em Viena, Berlim e Praga, uma grande proporção da elite profissional e cultural era de judeus assimilados. Em meados da década de 1890, Dale observa: “a fé judaica recebeu os mesmos privilégios que as denominações cristãs, e os representantes judeus receberam assentos na câmara alta do parlamento”.
Com base em entrevistas, correspondências e textos publicados, Dale evoca a era vividamente. O círculo de Polanyi em Budapeste, conhecido como A Grande Geração, incluiu ativistas e teóricos sociais, como seu mentor, Oscar Jaszi; Karl Mannheim; o marxista Georg Lukács; o irmão mais novo de Karl e seu sparring ideológico, o libertário Michael Polanyi; os físicos Leo Szilard e Edward Teller; o matemático John von Neumann; e os compositores Béla Bartók e Zoltán Kodály, entre muitos outros. Foi nesta estufa que Polanyi desenvolveu-se, frequentando o ginásio Minta, um dos melhores da cidade e a seguir a Universidade de Budapeste. Ele foi expulso em 1907, depois de uma confusão em que antissemitas interromperam uma palestra de um professor esquerdista popular, Gyula Pikler. Terminou sua graduação em Direito em 1908 na Universidade Provincial de Kolozsvár (hoje Cluj, na Romênia). Lá, foi um dos fundadores do jornal de esquerda humanista Círculo Galilei e depois integrou o conselho editorial do periódico.
Polanyi tornou-se um dos principais membros do partido político de Jaszi, o Radical, e foi nomeado seu secretário-geral em 1918. Ele foi atraído pelo socialismo cristão de Robert Owen e Richard Tawney e o socialismo comunitário de G.D.H. Cole. Ele contemplou uma fusão do marxismo e do cristianismo. Polanyi talvez seja melhor classificado como um social-democrata de esquerda — um cético, ao longo da vida, com a possibilidade de uma sociedade capitalista tolerar um sistema econômico híbrido.
Quando a Primeira Guerra Mundial eclodiu, Polanyi alistou-se  como oficial de cavalaria. Quando voltou para casa no final de 1917, sofrendo de desnutrição, depressão e tifo, Budapeste estava num conflito caótico entre a esquerda e a direita. Em 1918, o governo húngaro firmou uma paz separada com os Aliados, rompendo com Viena e imaginando criar uma república liberal. Os acontecimentos nas ruas ultrapassaram a disputa parlamentar e o líder comunista Béla Kunproclamou o que acabou por ser uma República soviética húngara de curta duração.
Polanyi partiu para Viena, tanto para recuperar a saúde como para sair da linha de frente política. Lá, encontrou sua vocação como jornalista de economia de alto nível e o amor de sua vida, Ilona Duczynska, uma polonesa radical de esquerda. Sua filha, Kari, nascida em 1923, recorda, como um pré-adolescente, que fazia um clipping recortando artigos de jornais em três línguas diferentes para o seu pai. Com 94 anos, ela continua a co-dirigir o Arquivo Polanyi em Montreal.
Polanyi foi contratado em 1924 para escrever sobre política internacional naquele que pode ser considerado o equivalente da Europa Central ao The Economist, o semanário Österreichische Volkswirt. Ele continuou sua busca por um socialismo viável, envolvendo-se com outros intelectuais de esquerda e polemizando com a direita, especialmente com os argumentos do teórico do livre mercado, Ludwig von Mises. Nos debates, publicados em detalhes, Polanyi mostrava como uma economia socialista poderia ser capaz de praticar preços eficientes. Mises insistia que não era. Polanyi argumentava que uma forma descentralizada de socialismo liderada pelos trabalhadores poderia praticar preços com uma boa precisão. Com o tempo ele concluiu, diz Dale, que estes argumentos técnicos abstrusos haviam sido um desperdício de seu tempo.[1]
Uma resposta prática ao debate com Mises estava se desenrolando ao vivo na Viena Vermelha. Trabalhadores mobilizados mantiveram um governo socialista municipal no poder por quase 16 anos depois da I Guerra Mundial. O governo fornecia gás, água e eletricidade, e construía casas e prédios para os trabalhadores, financiando-se por impostos pagos pelos ricos — incluindo um imposto para os funcionários públicos. Havia subsídios familiares para pais e seguro desemprego municipal para os sindicatos. Nada disso prejudicou a eficiência da economia privada na Áustria, que era ameaçada pelas políticas infelizes de “austeridade” econômica criticadas por Polanyi. Depois de 1927, o desemprego aumentou implacavelmente e os salários diminuíram, o que ajudou a levar ao poder em 1932-1933 um governo austrofascista.
Para Polanyi, a Viena Vermelha foi tão importante por sua política quanto por sua economia. A política perversa da Inglaterra de Dickens refletiu a fraqueza política de sua classe trabalhadora, enquanto a Viena Vermelha era um emblema da força de sua classe trabalhadora. “Enquanto [a reforma das leis sociais dos ingleses] causou um verdadeiro desastre para as pessoas comuns”, escreveu ele, “Viena alcançou um dos triunfos mais espetaculares da história ocidental”. Mas, como Polanyi ponderou, uma ilha de socialismo municipal não poderia sobreviver à maior turbulência do mercado e ao fascismo crescente.
Em 1933, com os fascistas assumindo o governo, Polanyi deixou Viena e foi para Londres. Lá, com a ajuda de Cole e Tawney, ele encontrou trabalho em um programa de extensão patrocinado pela Universidade de Oxford, conhecido como Associação Educacional dos Trabalhadores. Ele ensinou, entre outros temas, a história industrial inglesa. Sua pesquisa original para essas palestras formou os primeiros rascunhos de A Grande Transformação.
Seu mentor, Oscar Jaszi, também estava agora no exílio e ensinava em Oberlin. Para complementar o seu reduzido pagamento como adjunto, Polanyi conseguiu se contratado para conferências em faculdades nos Estados Unidos. Ele encontrou a América de Roosevelt um contraponto esperançoso à Europa. Depois que a guerra explodiu, uma dessas viagens de conferência evoluiu para uma nomeação por três anos no Bennington College, onde completou seu livro.
A Grande Transformação - a obra-prima de Polianyi
A Grande Transformação – a obra-prima de Polianyi
O timing para a publicação de A Grande Transformação foi auspicioso. O ano de 1944 testemunhou o Acordo de Bretton Woods, o apelo de Roosevelt por uma Declaração de Direitos Econômicos e o plano épico de Lord Beverage, Pleno Emprego numa Sociedade Livre. O que estas iniciativas tinham em comum com o trabalho de Polanyi era a convicção de que um mercado excessivamente livre nunca mais deveria levar à miséria humana, que termina no fascismo.
No entanto, o livro de Polanyi foi inicialmente recebido com um silêncio retumbante. Isto, penso eu, foi o resultado de dois fatores.
Primeiro, Polanyi não pertencia a nenhuma disciplina acadêmica e era essencialmente um autodidata. Dale escreve que quando finalmente lhe foi oferecido um trabalho como professor de História Econômica em Columbia, em 1947, “os sociólogos viram-no como um economista, enquanto os economistas pensavam o contrário”. Os meados do século XX, nos Estados Unidos, foram um período em que a economia política, o arcabouço institucional, a história do pensamento econômico e a história econômica entraram em um período de eclipse, em favor de uma visão formalista. E o pensamento de Polanyi não era uma hipótese que poderia ser testada.
Segundo e mais importante, os adversários ideológicos de Polanyi gozavam de prestígio e eram promovidos, enquanto ele contava apenas o poder de suas ideias. Mises, como Polanyi, não tinha credenciais acadêmicas. Mas ele conduziu um influente seminário privado a partir de seu cargo como secretário da Câmara de Comércio da Áustria. O seminário desenvolveu a escola de economia ultraliberal austríaca. O primeiro aluno de Mises foi Friedrich Hayek. Como teórico do laissez-faire financiado por empresários, Mises antecipou a Fundação Heritage em meio século.
Hayek afirmou em The Road to Serfdom [O Caminho da Servidão, livro que lhe deu o Nobel de Economia em 1974] que os esforços bem-intencionados do Estado para controlar os mercados acabariam em despotismo. Mas não há nenhum caso de social-democracia que tenha derivado em ditadura. A história deu razão a Polanyi, demonstrando que um mercado livre sem regras é que leva a uma ruptura com a democracia. Hayek acabou com uma cadeira na London School of Economics, que foi fundada originalmente pelos socialistas fabianos; a “Escola austríaca” foi reconhecida como uma escola de economia ultraliberal; e Hayek depois ganhou o Prêmio Nobel de Economia. O Caminho da Servidão, também publicado em 1944, foi um best-seller, publicado em capítulos no Reader’s Digest. A Grande Transformaçãode Polanyi vendeu apenas 1.701 cópias em 1944 e 1945.
Quando A Grande Transformação apareceu em 1944, a resenha no The New York Times foi seca. O resenhista, John Chamberlain, escreveu: “Este ensaio maravilhosamente escrito reavalia 150 anos de história e apresenta um sutil apelo por um novo feudalismo, uma nova escravidão, um novo status econômico que vai amarrar os homens aos seus lugares de residência e seus empregos”. Não à toa, esta opinião soa como Hayek: o mesmo Chamberlain acabara de escrever o prefácio efusivo para O Caminho da Servidão. É o que se poder chamar de economia política de influência.
No entanto, o livro de Polanyi recusou-se a desaparecer. Em 1982, seus conceitos foram a peça central de um impactante artigo do estudioso de relações internacionais John Gerard Ruggie, que denominou a ordem econômica do pós-guerra de 1944 de “liberalismo incorporado”. O sistema de Bretton Woods, escreveu Ruggie, reconciliou o estado com o mercado por “re-incorporar” o liberalismo econômico na sociedade por meio de políticas democráticas”[2]. O sociólogo dinamarquês Gøsta Esping-Andersen, importante historiador da social-democracia, usou o conceito polanyiano de ” desmercantilização” em um livro importante, The Three Worlds of Welfare Capitalism [Os três mundos do capitalismo do bem-estar social –1990], para descrever como os social-democratas continham e complementavam o mercado.[3]
Outros estudiosos que valorizaram as ideias de Polanyi foram os historiadores políticos Ira Katznelson, Jacob Hacker e Richard Valelly, o falecido sociólogo Daniel Bell, e os economistas Joseph Stiglitz, Dani Rodrik e Herman Daly. Por outro lado há pensadores que parecem essencialmente polanyianos em sua preocupação com os mercados que invadem os reinos não mercadológicos, como Michael Walzer, John Kenneth Galbraith, Albert Hirschman e a premiada com o Prêmio Nobel Elinor Ostrom. Este é o preço que se paga por ser, na auto-descrição de Hirschman, um intruso.
Exilado três vezes — de Budapeste para Viena, de Viena para Londres, e mais tarde para Nova York — Polanyi teve que se mudar mais uma vez quando as autoridades dos EUA não concederam a sua mulher Ilona um visto, alegando que ela havia sido do Partido Comunista na década de 1920. Eles mudaram-se para  um subúrbio de Toronto, de onde Polanyi foi para Columbia, até sua aposentadoria em meados da década de 1950.
Embora seus entusiastas tendam a se concentrar apenas em A Grande Transformação, o livro de Dale é precioso para a avaliação sobre Polanyi depois de 1944. Ele viveu por mais 20 anos, trabalhando no que era conhecido como sistemas econômicos primitivos, o que lhe deu mais bases para demonstrar que o mercado livre não é uma condição natural, e que os mercados de fato não têm que predominar sobre o resto da sociedade. Ao contrário, muitas culturas ancestrais misturaram as formas de intercâmbio de mercado com relação econômicas e comerciais não mercadológicas. Ele estudou o tráfico de escravos do Daomé e a economia de Atenas na Antiguidade, os quais “demonstraram que elementos de redistribuição, reciprocidade e troca poderiam ser efetivamente fundidos em ‘um todo orgânico’ “. Dale escreve: “Para Polanyi, a Atenas democrática foi na verdade uma precursora, na Antiguidade, da Viena vermelha”.  Atenas, é claro, estava longe de ser socialista, mas naquela economia pré-capitalista estavam mescladas formas de geração de renda mercadológicas e não mercadológicas.
Dale também aborda os pontos de vista de Polanyi sobre a escalada da Guerra Fria e sobre a economia mista do pós-guerra, que muitos agora veem como uma era dourada. Os Trinta Gloriosos [assim são conhecidos os 30 anos de forte crescimento na economia do pós-guerra, de 1946 a 1975] que combinavam o capitalismo igualitário e a democracia restaurada, foram  sentidos por Polanyi como uma afirmação. Mas ele, tendo vivido duas guerras, a destruição da Viena socialista, a perda de familiares durante o nazismo, quatro exílios e longas separações de Ilona, ​​não foi tão facilmente convencido. Enquanto admirava Roosevelt, ele considerava o governo trabalhista britânico de 1945 como um exemplo acabado de estado de bem-estar num sistema ainda capitalista.
Meio século depois, essa preocupação mostrou-se acertada. Outros viram o sistema de Bretton Woods como uma maneira elegante de reiniciar o comércio, criando condições para cada nação-membro administrar suas economias de pleno emprego; mas Polanyi considerou o sistema como uma extensão da influência do capital. Isso também pode ter sido profético. Na década de 1980, o FMI e o Banco Mundial foram transformados em defensores da austeridade, o oposto do que fora planejado por seu arquiteto, John Maynard Keynes. Ele culpou, pela Guerra Fria, principalmente a ação dos Aliados. Louvou a visão de Henry Wallace [vice-presidente dos EUA sob Roosevelt], de que o Ocidente poderia ter conseguido uma acomodação com Stalin.
Dale não poupou críticas a Polanyi sobre o que chamou de seu ponto cego em relação à União Soviética. Em vários momentos das décadas de 1920 e 1930, ele observa, Polanyi deu sua aprovação a Stalin, mesmo culpando o pacto Molotov-Ribbentrop de 1940 pelo o anti-sovietismo da Casa Branca. Ele estava muito otimista quanto às intenções dos soviéticos no período imediato do pós-guerra. Como membro do Conselho de Emigrados Húngaros em Londres, ele discutiu com os outros líderes se o Exército Vermelho deveria ser entendido  como um precursor do socialismo democrático. A libertação soviética da Europa Oriental, insistiu Polanyi, traria “uma forma de governo representativo baseado em partidos políticos”.
Comprovado o erro de sua tese, Polanyi aplaudiu a abortada revolução húngara de 1956. Mesmo depois de a rebelião ter sido esmagada por tanques soviéticos, ele encontrou razões para a esperança no comunismo goulash ligeiramente reformista que se seguiu. Isso era ingênuo, mas não totalmente equivocado. Embora Polanyi não fosse marxista, havia uma abertura suficiente na Hungria a ponto de em 1963, um ano antes de sua morte e bem antes da queda Muro de Berlim, ele ter sido convidado para conferências na Universidade de Budapeste, sua primeira visita a seu país em quatro décadas.
Karl Polianyi e a mulher, , Ilona Duczynska
Karl Polianyi e a mulher, Ilona Duczynska, matemática, anarquista e luxemburguista
No centenário de nascimento de Polanyi, em 1986, Kari Polanyi-Levittorganizou um simpósio em  homenagem a seu pai em Budapeste. O volume da conferência é um excelente companheiro à biografia de Dale[4]. Os 25 artigos curtos são escritos por uma mistura de escritores com base no Ocidente e vários que moravam no que ainda era a Hungria comunista — onde Polanyi era amplamente lido. A escrita é surpreendentemente exploratória e não dogmática. Mesmo assim, quando chegou sua vez da falar, Polanyi-Levitt pediu: “Se me for permitido mais um pedido à Academia Húngara das Ciências … este é que A Grande Transformação seja disponibilizada aos leitores húngaros em língua húngara”. Isso foi finalmente feito em 1990. Como muitos no Ocidente, o regime comunista em Budapeste não tinha certeza do que fazer com Polanyi.
Hoje, depois de um interlúdio democrático, a Hungria é um centro da autocracia ultra-nacionalista. Políticas equivocadas de licenciosidade financeira têm desempenhado sei papel habitual. Após o colapso financeiro de 2008, o desemprego húngaro aumentou constantemente, de menos de 8% antes do crash até quase 12% até o início de 2010. Na eleição de 2010, o Fidesz – Magyar Polgári Szövetség (União Cívica Húngara), de extrema direita, varreu o governo de esquerda, ganhando mais do que 2/3 dos assentos parlamentares, o que possibilitou a “democracia de controle” do primeiro-ministro Viktor Orbán. Foi mais um eco, de que Polanyi não precisava.
O que, afinal, devemos fazer com Karl Polanyi? E que lições ele pode oferecer para o momento presente? Como até mesmo os seus admiradores admitem, algumas de suas observações eram falhas. Alguns de seus seguidores, Fred Block e Margaret Somers, ressaltam que sua narrativa da Grã-Bretanha do final do século XVIII exagera na abrangência da proteção legal aos mais pobres. Seu famoso estudosobre a Lei dos Pobres ou  Lei Speenhamland, de 1795, cuja assistência pública protegeu os pobres das primeiras perturbações do capitalismo, exagerou na avaliação de sua aplicação na Inglaterra como um todo. No entanto, seu relato da reforma liberal da Lei dos Pobres na década de 1830 foi perfeito. A intenção e efeito foram expulsar as pessoas da rede de apoio e forçar os trabalhadores a aceitarem empregos por salários mais baixos.
Pode-se também argumentar que o fracasso da democracia liberal em conquistar a Europa Central no século XIX, o que abriu o caminho para o nacionalismo de direita, teve causas mais complexas do que a disseminação do liberalismo econômico. No entanto, Polanyi estava certo ao observar que foi a tentativa fracassada de universalizar o liberalismo de mercado após a Primeira Guerra Mundial que deixou as democracias fracas, divididas e incapazes de resistir ao fascismo, até o início da guerra. Neville Chamberlain é mais lembrado por sua capitulação para Hitler em Munique em 1938. Mas, no fosso da Grande Depressão, em abril de 1933, quando Hitler estava consolidando o poder em Berlim e Chamberlain era o chanceler conservador do Tesouro em Londres, ele afirmou : “Estamos livres desse medo que nos assola, o medo de que as coisas vão piorar. Nós devemos nossa liberdade ao fato de termos equilibrado nosso orçamento”. Tal foi a sabedoria convencional perversa, então e agora.
Um artigo recente de três cientistas políticos dinamarqueses no Journal of Democracy questiona se é razoável atribuir o surgimento do fascismo nas décadas de 1920 e 1930 às políticas liberais do laissez-faire e ao colapso econômico.[5] Eles relatam que as democracias bem estabelecidas do noroeste da Europa e das antigas colônias britânicas do Canadá, dos EUA, da Austrália e da Nova Zelândia “foram virtualmente imunes às crises persistentes do período entreguerras”, enquanto as democracias mais novas e mais frágeis da Europa do Sul, Central e Oriental sucumbiram. Na verdade, os fascistas assumiram brevemente o poder no noroeste da Europa apenas por invasão e ocupação. No entanto, essa observação faz de Polanyi uma voz ainda mais profética e ameaçadora sobre o nosso tempo. Hoje, em grande parte da Europa, os partidos de extrema direita são agora a segunda ou terceira maior força.
Em suma, Polanyi pode ter errado aqui e ali, mas conseguiu acertar no grande cenário. A democracia não pode sobreviver com um mercado excessivamente livre; e conter o mercado é tarefa da política. Ignorar isso é cortejar o fascismo. Polanyi escreveu que o fascismo resolveu o problema do mercado desenfreado destruindo a democracia.
Mas, ao contrário dos fascistas do período entreguerras, os líderes de extrema direita de hoje não se ocupam de conter as turbulências no mercado ou proporcionar empregos dignos através de obras públicas. O Brexit, um espasmo de raiva dos despossuídos, não fará nada positivo para a classe trabalhadora britânica; e o programa de Donald Trump é uma mescla de retórica nacionalista e uma aliança ainda mais profunda do governo com o capitalismo predatório. O descontentamento ainda pode ir para outro lugar. Assumindo o valor da democracia, pode haver uma mobilização combativa no espírito do socialismo viável de Polanyi. O pessimista Polanyi diria que o capitalismo ganhou e a democracia perdeu. O otimista nele procuraria uma renovação da política popular.
___________________
[1] Tratei do conflito Mises-Hayek-Polanyi em Karl Polanyi Explains It All, no The American Prospect, maio-jun 2014
[2] John Gerard Ruggie, International Regimes, Transactions, and Change: Embedded Liberalism in the Postwar Economic Order, International Organization, Vol. 36, No. 2 (Spring 1982).
[3] Gøsta Esping-Andersen,The Three Worlds of Welfare Capitalism (Polity, 1990).
[4] The Life and Work of Karl Polanyi: A Celebration, edited by Kari Polanyi-Levitt (Montreal: Black Rose, 1990).
[5] Agnes Cornell, Jørgen Møller, Svend-Erik Skaaning, The Real Lessons of the Interwar Years, Journal of Democracy, Vol. 28, No. 3 (July 2017).
TEXTO-FIM
Fonte: Clipagem feita diretamente do site https://outraspalavras.net/destaques/do-livre-mercado-as-grandes-ditaduras/

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

IV SEDRES - Seminário de Desenvolvimento Regional, Estado e Sociedade, na UFT em 2018.




Sob o apoio da ANPUR - Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional, teve sua primeira edição na Universidade Federal do RJ (UFRJ), sua segunda edição na Universidade Estadual da PB em Campina Grande (UEPB), sua terceira edição na Universidade Regional de Blumenau (PPGDR - FURB) em SC e agora, sua quarta edição consagra o evento na Universidade Federal de TO (UFT).

Já está no ar o site do evento estará no ar que recebe inscrições até 30 de março de 2018, para seis sessões temáticas:

1 - Estado, Instituições e Políticas Públicas;

2 - Estudos Teóricos e Metodológicos em Desenvolvimento Regional;

3 - Cultura, Turismo e Desenvolvimento;

4 - Dinâmicas Socioeconômicas no Território;

5 - Ambientes e Desenvolvimento no Território;

6 - Ciência, Tecnologia e Inovação

Basta acessar diretamente em http://eventos.uft.edu.br/index.php/sedres/sedres4

Em breve estaremos divulgando informações mais detalhadas para todos os interessados. Basta acompanhar as publicações do Observatório do Desenvolvimento Regional da FURB. 

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

[SIGAD] Análise do PIB de 2015 de Blumenau e dos municípios catarinenses

O Sistema de Informações Gerenciais e de Apoio à Decisão - SIGAD da FURB publicou nesta sexta-feira (15/12) um estudo referente ao Produto Interno Bruto (PIB) de 2015 de Blumenau e dos municípios catarinenses, que foi divulgado nesta última quinta-feira (14/12) pelo IBGE. 
O estudo pode ser visualizado no site www.furb.br/sigad no campo “Publicações Especiais” com o título “Produto Interno Bruto (PIB) de Blumenau e dos municípios catarinenses em 2015”.



segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Apresentação: projeto final PROESDE 2017

No dia 09 de dezembro de 2017 foi o encerramento do curso de Desenvolvimento Regional PROESDE (Programa de Educação Superior para o Desenvolvimento Regional), aonde foram apresentados varias propostas de intervenção:

1) Educação e saúde: uso de um jogo eletrônico como ferramenta didática e de aconselhamento acerca de infecções sexualmente transmissíveis em uma Escola Pública de Ensino Médio no Município de Blumenau - SC.

2) Prevenção de gravidez durante a infância e a adolescência no município de Blumenau nas Escolas Públicas.

3) Promoção de saúde e educação alimentar: Núcleos Familiares de crianças do Ensino Fundamental da Escola Básica Municipal Vidal Ramos em Blumenau.

4) Oficinas interativas: uma ação social em uma escola de Blumenau.

5) Potável: até quando?


Turma do PROESDE 2017

Alunos e professores do PROESDE 2017

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Agentes do DR apresentam propostas no sábado


No próximo sábado, dia 9, os alunos de graduação da FURB, inscritos no curso de extensão Programa de Educação Superior para o Desenvolvimento Regional (Proesde) – Turma 2017, apresentam à comunidade as suas propostas de intervenção, no auditório do Bloco T, a partir das 9 horas.

Os futuros Agentes de Desenvolvimento Regional apresentarão as propostas, chamadas de "devolutiva social" e participarão de uma roda de conversa, sob a coordenação dos professores doutores Oklinger Mantovanelli Júnior e Ivo Marcos Theis, do PPGDR FURB.

O PROESDE - Programa de Educação para o Desenvolvimento Regional é um curso de extensão de oferta anual com financiamento da Secretaria de Estado da Educação - SED e execução pelo Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional da FURB.
O curso tem como público alunos de diversas graduações da FURB que recebem bolsa de gratuidade para cursá-lo, assim como 70% do valor da mensalidade de graduação.

As aulas ocorrem aos sábados e neste evento os grupos de alunos apresentarão seus trabalhos de conclusão de curso, que são projetos de intervenção.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Mais de um bilhão de toneladas de alimentos são desperdiçados num mundo com 815 milhões de famintos


Perto de minha casa tem feira-livre. Semanalmente, portanto, acompanho desde manhã bem cedinho o movimento dos feirantes. Alguns recebem as mercadorias trazidas em kombis, outros já trazem tudo num furgão próprio.Como se estivessem arrumando a vitrine de uma loja de joias caras, há os que empilham frutas, verduras, legumes, carnes e ovos um a um, com cuidado, olhando de longe o desenho que ficou. Outros dispõem tudo em pequenos sacos. A arrumação só termina quando chega o primeiro cliente.

Mais do que o design da exposição dos alimentos, porém, tem grande importância para o feirante o aspecto da mercadoria que pretende passar adiante. As maçãs são esfregadas, às vezes uma a uma, para que tomem brilho. Assim também com berinjelas, abobrinhas, cebolas. Escolhidas a dedo, precisam estar de um jeito que agrade aos olhos da clientela. E, é claro, nesse aspecto entra o que se considera como beleza aqui no Ocidente, aqui no Rio de Janeiro, aqui na Zona Sul da cidade. É o nosso padrão de beleza que vaiinfluenciar as vendas, e isso se aplica, sim, também a legumes, frutas, verduras. Quem vai querer comprar uma maçã meio amassadinha ou um pimentão menos verde brilhante? Pouco a pouco, esses produtos ‘feinhos” vão ficando de lado, vão virar xepa.

E acaba acontecendo o que vi na semana passada: um tabuleiro cheio de pimentões foi para o asfalto no fim da feira, quando eu passava de volta, já no meio da tarde.Ficariam ali à espera do pessoal da limpeza urbana, ou de alguns excluídos pelo sistema econômico, que não têm dinheiro para comprar os pimentões bonitos. Passei e parei para observar melhor. Muitos pimentões tinham apenas algum amassado. O feirante, que ainda estava por ali, chegou perto porque percebeu minha curiosidade.

– Não adianta, eu também tenho pena quando vejo jogar fora.Mas se puser para vender, não sai. A maioria das pessoas só compra os maiores e mais bonitos – disse-me ele.

Concordei.Eu mesma, talvez, já tenha rejeitado na vida algum vegetal, verdura, fruto ou legume com cara de passado. Lembrei-me das minhas andanças pela Ceasa (Central de Abastecimento do Estado do Rio de Janeiro) em Irajá, a maior da América Latina, quando observo sempre os vendedores perguntarem aos seus clientes:

– Vai levar para cozinha ou para vender?

Os produtos mais bonitos, escolhidos para a venda, têm duas características principais. Eles sempre acabam mais cedo, porque os clientes chegam assim que abre a Ceasa, por volta das 3h da manhã. E são mais caros, justamente porque precisam cumprir duas funções: não só nutricional, mas também ser agradável aos olhos de quem os compram.Saindo dali, serão embalados ricamente para fazerem bonito nas gôndolas.

Nesse instante, minha memória foi para a entrevista que fiz com a presidenta do Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional à época, Maria Emilia Pacheco, aqui para o G1.Ela defendeu a agroecologia, censurou bravamente o uso abusivo dos agrotóxicos e, a folhas tantas, quando conversávamos já com o gravador desligado, falamos sobre a aparência dos alimentos que não são plantados com o uso dessas substâncias. Geralmente são produtos menores do que os outros e mais feios, disse eu. E foi ela quem me chamou a atenção para esse conceito de beleza.

– Já esteve numa fazenda? Pegou fruta no pé? Ela não cai bonitinha, lavadinha, esfregadinha. Mas alimenta, é tudo o que precisamos. A nossa sociedade ocidental é que começou a precisar comer com os olhos, não é assim em todo o mundo – disse-me ela.

Por coincidência, neste domingo (26), enquanto caminhava com meus cachorros, duas mangas caíram da mangueira no meio da rua por onde eu passava. Por sorte não vinha carro e, antes que elas fossem amassadas, consegui pegá-las. Estavam meio sujas, empoeiradas, ambas tinham uma leve lesão. Levei para casa, lavei, descasquei, cortei em pedaços. E comi. Estavam deliciosas. 

Antes que vocês, leitores, me julguem radical, preciso dizer que eu já vinha com pensamento fixo sobre desperdício de alimentos, desde que li, no site da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), a notícia de que entre um quarto e um terço dos alimentos produzidos anualmente para o consumo humano se perde ou é desperdiçado. Isso equivale a cerca de 1,3 bilhões de toneladas de alimentos, o que inclui 30% dos cereais, entre 40 e 50% das raízes, frutas, hortaliças e sementes oleaginosas, 20% da carne e produtos lácteos e 35% dos peixes.

Por ano, 15% dos alimentos são desperdiçados na América Latina, o que corresponde a 6% das perdas mundiais. Isso ocorre em diferentes fases: 28% no consumo, 28% na produção, 22% no manejo, 17% no mercado e distribuição; 6% no processamento.

O tema, de acordo com o artigo escrito por Raúl Osvaldo Benítez, representante regional da FAO para a América Latina e o Caribe, está sendo debatido em diversas instâncias e se relaciona a um dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), metas sugeridas pelas Nações Unidas para serem cumpridas pelos países até 2030.

Diz o ODS de número 12: “Até 2030, reduzir pela metade o desperdício de alimentos per capita mundial, em nível de varejo e do consumidor, e reduzir as perdas de alimentos ao longo das cadeias de produção e abastecimento, incluindo as perdas pós-colheita”.

A FAO calcula que esses alimentos seriam suficientes para alimentar dois milhões de pessoas. Só no Brasil, a fome afeta 14 milhões. No mundo, são 815 milhões. Na venda, o Brasil desperdiça 22 bilhões de calorias, o que seria suficiente para satisfazer as necessidades nutricionais de 11 milhões de pessoas e permitiria reduzir a fome em níveis inferiores de 5%.

A imagem daqueles pimentões jogados fora porque não servem aos olhos humanos não me sai da cabeça.

Há um link possível, nesta reflexão, com o uso absurdo de agrotóxicos no Brasil – somos o país que mais utiliza esses produtos no mundo. “Alimentos que recebem agrotóxico ficam com boa aparência, mas a principal característica é a uniformidade”, esclarece o site Orgânico na Kombi.

“Banana com muitas pintas marrons, por exemplo, está perfeita para o consumo e é, inclusive, mais docinha”, diz o texto do site, que busca desmitificar a ideia de que os produtos orgânicos são mais feiosos.

Em última instância, reduzir a fome no mundo requer também uma redução de desperdícios e perdas. E também exige mudanças de nossos hábitos culturais. Da escolha dos alimentos ao padrão de consumo, tudo precisa ser revisto. No fundo, é uma boa coisa: as crises sempre trazem oportunidades de crescimento. E aqui estou falando de crescimento individual mesmo, não dos países. É para pensar.